Estou me mudando para uma casa com mais janelas. Neste novo ano – que exigirá de mim mais do que nunca trabalho e dedicação – sei que precisarei muito dos beijos do meu amado, do sorriso da minha filha, das palavras dos meus amigos e de janelas abertas pro horizonte. Tenho ânsia por estrelas, voos de pássaros, nesgas de luz invadindo o quarto ao amanhecer, e gotas de chuva na vidraça. Quero minha colcha – ainda que precária – plena de vida.
Eis o meu novo endereço: http://outrosestranhamentos.blogspot.com/
Não tive tempo de comprar presentes de Natal, de enviar cartões de boas festas, de participar de almoços de confraternização. Ando sentindo-me feia, cansada, e estou sempre muito ocupada. Por isso, algumas pessoas foram embora, outras têm me olhado de lado, mas há aqueles que ficam (os que realmente importam). Sei apenas que, no momento, preciso continuar costurando, ou tentando costurar, uma enorme colcha de retalhos.
Sonhou que um homem conhecido lhe dava um tiro com uma arma muito antiga. Acordou fatigada., sozinha. Não conseguiu sustentar um copo durante o café da manhã e teve de recolher um por um todos os cacos. Saiu pra rua um pouco zonza e trabalhou durante horas como se fosse a última. Retornou pelo caminho da praia e o mar lhe doeu as vistas de tão verde. Cumprimentou o vendedor de gás, o zelador do prédio, a vizinha da frente, mas ninguém percebeu que era outra quem lhes desejava boa tarde.
Pesquisadores norte-americanos descobriram recentemente que o abraço faz bem a saúde, pois, além de fortalecer a auto-estima, eleva os níveis da oxitocina, um hormônio que reduz a pressão sanguínea e o ritmo cardíaco. Ou seja, o abraço faz bem ao coração. A moça aprendera isso ainda menina e mais das vezes, quando o seu peito se abria em abismo, corria para sua mãe ou seu pai e lhes pedia um abraço, por favor. Naquele instante, aquele abraço a resgatava, e ela então voltava às bonecas, cerzida de novo.
“Aquele que sofreu com o frio quando era pequeno, sentirá frio pelo resto de sua vida, porque o frio da infância não desaparece nunca.”
Apenas um trechinho de um dos livros mais intensos que li na vida, O mundo, do espanhol Juan José Millás (Planeta Literário, 2009). Um dia, certamente, escreverei algo sobre esta obra, sobre como ela me toca. Por enquanto, tento atravessar um largo rio, mas trago o livro sempre comigo.
A moça tem caminhado. A despeito das pedras, dos precipícios, das tempestades, tem caminhado. Há uma estrada difusa à sua frente, mas ela, definitivamente, caminha.