amado, jamais serei a tua Dora Diamant simplesmente por que sou outra mulher e tu és outro homem não sei cantar na língua sagrada e nunca sonhamos com Tel Aviv
no entanto desejo,
como a moça judia,
acolher-te o derradeiro gesto
e talvez o meu grito também dissipe o eco da última oração
M.: Aeronauta, de onde é que você tira inspiração para escrever um texto incrível desse?
A.: Da dor.
M.: ...
(Kafka, Virginia Wolf, Clarice Lispector, Sylvia Plath, Vicent van Gogh, Ana Cristina Cesar, Aglaja Veteranyi, Caio Fernando Abreu, e tantos outros. Artistas que transformaram a dor em arte. Dizem que o autor de Metamorfose costumava falar sobre uma espada enterrada em suas costas. Sei que é a esse incomodo que a Aeronauta se refere, a essa lâmina atravessando o corpo, a alma, o juízo. E há dias nos quais ela entra mais fundo e há dias nos quais é quase impossível respirar.)
Outro dia uma amiga me disse que a esperança é para os tolos. Se assim for, eu sou uma tola, pois tenho muita esperança. Tenho esperança de que o mundo se torne um lugar melhor para se viver; de que os homens sejam mais justos, amorosos e menos ambiciosos; de que os Palestinos se entendam com os Judeus. Tenho esperança de oferecer mais conforto à minha mãe; de poder pagar o curso de moda em Nova York pra minha filha; de levar uma vida digna até o fim ao lado daquele que amo. Tenho esperança, mas não espero: eu trabalho, eu estudo, eu procuro não ser tão nociva à natureza, eu tento ensinar coisas boas à minha filha, eu tenho aprendido a prestar mais atenção às dores dos outros. Não, não estou querendo vender uma imagem de pessoa boazinha, até por que eu sempre preferi o vilão da história, o Lobo Mau ao invés da sem graça da Chapeuzinho, e confesso que cometo todos os dias, prazerosamente, pelo menos quatro dos sete pecados capitais. Porém, eu tenho esperança de um dia alcançar um mínimo da virtude que, para mim, é essencial ao ser humano: simplicidade. Simplicidade no existir. Deixando claro, no entanto, que o simples não é simplório. É isso: tenho esperança, mas não espero, caminho. Nasci sob o signo de Áries, faço parte daquele grupo de pessoas que derruba muros com a cabeça, mesmo que para isso tenha de arrebentar a cabeça.
O dia era inteiro preparação. Meu pai acordava cedo e separava a lenha. Minha mãe ralava o milho, o coco, colocava o amendoim no fogo e delegava a cada filho uma função. Nós, os seis filhos, obedecíamos como nunca: um mexia a panela de canjica, outro amarrava as palhas das pamonhas, o mais velho sempre ia colher as laranjas no sítio e os mais novos colavam e dependuravam as bandeirolas. Todos participavam animados e todos esperavam ansiosos, cada um tendo guardado com zelo de fortuna a sua caixa de sapatos repleta dos fogos para mais tarde, nosso único luxo. Às dezoito horas, meu pai acendia a fogueira que queimaria até a noite do dia seguinte. As dezenove, minha mãe arrumava a mesa e liberava as comemorações. Não me lembro de um tempo mais feliz. E todo ano, por mais distante que eu estivesse, sempre voltava em busca do mesmo fogo, dos mesmos sabores, da mesma menina de cabelos trançados brincando com os irmãos. Por isso, naquele junho de 2007, não faltou a fogueira, não poderia faltar, e a casa estava cheia de gente, mas não soltamos os fogos. Meu pai, que se chamava João (por causa mesmo do santo que dá nome aos festejos), escolheu partir em plena festa. Desde então, eu amo ainda mais as fogueiras, pois, entre as suas chamas, eu vejo meu pai sorrindo, eu vejo cantando, eu vejo meu pai dançando, eu vejo meu pai brincando na noite de São João.
Talvez seja este o meu destino: essa alegria triste, essa tristeza alegre. Melancolia doce que habita meu coração.
Eu desconfio de mim. Desconfio da qualidade do que escrevo. Desconfio da validade do que faço. Desconfio da maturidade do que sinto. E é por desconfiar que tento dizer melhor, tento fazer melhor, tento sentir melhor, tento ser melhor. E, mesmo tentando, estou sempre faltando, sempre longe demais.
Para Janaina, Marcus e Viviane, cujos comentários me fizeram pensar mais sobre o tema
Acho que foi com minha mãe que aprendi da necessidade de se fechar portas. Fechar a porta é encerrar o assunto, partir para outra, seguir em frente sem deixar nenhuma pendência, nenhuma energia presa quando algo já não é bom, ou saudável. Não significa se trancar para alguém ou alguma coisa. Significa renovação e cuidado, para conosco e para com o outro. Todavia, é difícil fechar portas, porque não sabemos o que encontraremos à nossa frente: talvez um muro intransponível, talvez um despenhadeiro, talvez simplesmente o vazio. Tenho aprendido a fechar portas, a abrir outras, e a caminhar pela cidade chuvosa sem me perder.
Chove muito na cidade, mas você não está para aquecer as minhas costas. Eu cuido da sua casa, leio os seus livros, escuto os seus discos, coloco o seu perfume antes de dormir e espero a sua voz inundando a sala.
Os dias têm sido nublados. Eu tenho sido uma ilha.